
Ele pensou o mundo. O Brasil ignorou.
Uma leitura crítica e reverente de “Por uma Outra Globalização”.
Milton Santos não escreveu um livro sobre globalização. Escreveu uma convocação intelectual para a refundação do mundo. Por uma Outra Globalização é uma das obras mais densas, atuais e estrategicamente silenciadas da história do pensamento brasileiro. E isso não se deve à sua dificuldade conceitual; ao contrário. O que incomoda em Milton Santos não é o que ele complica, mas o que ele revela com lucidez incômoda.
A globalização que o autor descreve como “perversa” é um projeto consolidado. Um processo conduzido por forças econômicas transnacionais, em conluio com elites nacionais e sustentado por uma cultura do consumo, da passividade política e da homogeneização do desejo. Milton Santos a analisa com precisão geográfica e sociológica, demonstrando que a mundialização atual não é sinônimo de integração, mas de exclusão sistemática.
Mas o que torna essa obra irrecusável, principalmente para quem pensa o mundo a partir da margem, é a proposição de uma “globalização possível”, nascida das práticas cotidianas, dos saberes não institucionalizados, das redes de solidariedade e da força inventiva dos povos submetidos. É nesse ponto que Milton rompe com o determinismo e recusa o cinismo travestido de realismo político. Ele aposta que a transformação não virá de cúpulas, fóruns ou tratados, e sim do solo onde a vida resiste à lógica da obediência.
Como sociólogo negro e periférico, leio Milton Santos com duas responsabilidades: a da reverência e a da continuidade. Reverência por sua obra, que se recusa a traduzir a realidade pelos códigos hegemônicos do pensamento europeu. Continuidade porque sua escrita não é um ponto final, mas um gesto inaugural. Ao contrário de tantos intelectuais que escrevem para a universidade, Milton escrevia para o povo, com o mesmo rigor. E talvez tenha sido exatamente isso que o tornou tão indigesto para o establishment acadêmico brasileiro.
Há um silêncio sistemático em torno da sua figura. A mídia, a universidade e a política raramente o citam, e quando o fazem, é pela tangente. Nunca pela contundência. E isso diz muito sobre o Brasil: um país que não sabe o que fazer com um homem negro que pensava o mundo com mais complexidade do que aqueles que sempre o dominaram.
Milton Santos nos oferece, com este livro, um método de leitura da realidade que inclui a técnica, a política, a subjetividade e a experiência territorial. Sua obra exige do leitor não apenas atenção, mas compromisso. A “outra globalização” que ele propõe não é uma utopia ingênua, mas uma possibilidade concreta que já habita as práticas populares, as economias alternativas e as resistências invisíveis. Cabe a nós reconhecê-las, articulá-las e politizá-las.
Ler Por uma Outra Globalização hoje é um gesto de formação e posicionamento. É entender que o mundo como está não é natural: é produto de escolhas. E que a transformação do mundo não é uma fantasia militante, mas uma urgência geopolítica, cultural e ética.
Milton Santos enxergou isso com uma clareza que poucos alcançaram. E nos deixou, em suas páginas, um convite que ainda estamos atrasados em aceitar: pensar o mundo com os pés no chão e os olhos fora do mapa.