
As veias abertas, o sangue negro e o silêncio branco
Uma leitura periférica e insubmissa de Eduardo Galeano
Não leia. Especialmente se você achar que Galeano é leitura obrigatória.
Principalmente se você idolatra o autor, mas nunca parou para se perguntar quem ele esqueceu de colocar na linha de frente dessa história de dor e espoliação.
As Veias Abertas da América Latina é um grande livro, mas também é uma grande omissão.
Eduardo Galeano escreveu um diagnóstico brutal da América Latina: a pilhagem histórica, o saque europeu, a dependência econômica, a ferida colonial que nunca cicatrizou. Ele percorre cinco séculos de roubo e humilhação, transformando o dor continental em poesia política. É um livro necessário. Mas necessário para quem?
Lido do chão da favela, da quebrada, da rua onde a colonização ainda distribui tiros e falta d’água, a obra de Galeano tem um problema grave: a dor é negra, mas a voz que a narra quase nunca é.
O corpo escravizado é denunciado, mas não fala. A senzala é cenário, mas nunca personagem. O negro é estatística, força de trabalho, símbolo do passado, nunca sujeito do agora.
Eduardo Galeano escreve com fúria e beleza. Mas fúria branca é sempre mais bem recebida.
Ele pode denunciar o capitalismo e ser aplaudido pelos auditórios progressistas da elite intelectual.
Nós, quando fazemos a mesma denúncia, somos acusados de agressividade.
Ele pode dizer que “a América Latina foi estuprada” e isso é tão poético.
Se nós dizemos que “a favela é estuprada todos os dias”, isso é tão indigesto.
Esse livro é uma carta aberta ao colonialismo, mas não é uma carta assinada pelos colonizados negros.
E isso, para nós, é imperdoável.
As Veias Abertas da América Latina seguem o roteiro da denúncia latino-americana que comove, mas não convoca.
Fala das oligarquias, dos generais, dos impérios, das corporações, mas silenciado sobre o racismo como motor da desigualdade.
Fala da mineração, mas não fala do corpo preto minerado.
Fala do açúcar, mas não fala da carne preta que alimentou essa produção.
Fala de saque, mas não fala da negação sistemática da inteligência negra.
A crítica de Galeano é continental, mas não é radical.
Ser radical é ir à raiz, e a raiz da desigualdade na América Latina tem cor.
Sem nomear o racismo, qualquer análise continental é meia leitura.
E meia leitura, neste site, não passa.
O analfabeto, sociólogo negro e periférico não nega a importância da obra, mas faz questão de dizer: essa obra não nos inclui como deveria.
E um livro que fala de sangue sem considerar quem sangra até hoje é um livro que precisa ser lido com cuidado ou com fúria.
Por isso, aqui não LEIA!, nós lemos Galeano do avesso.
Com desconfiança e precisão.
Com gratidão crítica e facão na mão.
Porque nossas veias estão abertas, mas agora elas escrevem.
E o sangue que corre nelas não serve mais apenas para pintar a bandeira da esquerda branca.
Servi para denunciar, pensar, concordar.
E, se preciso for, rasgaremos as páginas e rescreveremos outras.