
Microviolências, macroresistências
Dizem por aí que somos o que repetimos. Que pequenas mudanças constroem grandes transformações. Que hábitos atômicos, quase imperceptíveis, têm o poder de reconfigurar destinos. Em parte, isso é verdade. Mas o que ninguém diz, talvez porque doa demais, é que nem todos os corpos partem do mesmo ponto de largada. O que para uns é escolha, para outros é urgência. O que para uns é disciplina, para nós é sobrevivência.
Nas periferias, o hábito nunca foi decisão consciente. Sempre foi ritual de defesa. Acordar antes do sol não significava produtividade matinal, significava garantir um lugar no ônibus sem ser esmagado. Ficar em silêncio numa loja não era prática de mindfulness, era evitar ser seguido pela segurança. Dizer “sim, senhor” não era sobre cordialidade, era estratégia moldada pela posição do medo. Sorrir demais era contenção da brutalidade, tentativa de neutralizar a suspeita que nossa existência provoca. Nós, negros e periféricos, sempre tivemos nossos hábitos atômicos, mas eles foram forjados sob o peso de bombas estruturais.
James Clear, autor de “Hábitos Atômicos”, fala do poder das pequenas repetições. Mas existem repetições que moldam o destino não pela construção e sim pela destruição. São as microviolências diárias. Ser seguido no shopping. Ouvir que “você é tão educado que nem parece da favela”. Ter o cabelo tocado como se fosse um animal exótico. Explicar todos os dias que você não é bravo, só tem o rosto sério. Estes são os hábitos do racismo. Pequenos, quase invisíveis, mas diários, sistemáticos e acumulativos. Uma versão perversa de hábitos atômicos cultivados pelo opressor. Cada um funciona como uma granada embrulhada em gentileza. No fim, explode na alma de quem sente e não pode reagir. O resultado é o corpo que adoece, a mente que se retrai, o sujeito que organiza sua vida ao redor da própria contenção.
Enquanto o discurso branco hegemônico repete “mude seus hábitos, mude sua vida”, nós sabemos que mudar hábitos nunca foi suficiente. O que está em jogo é quebrar ciclos históricos. Nosso hábito atômico é não morrer. Não morrer de fome, nem de tiro, nem de descaso, nem de estatística, nem de tédio escolar, nem de abuso institucional, nem de frustração cotidiana. Nosso hábito é levantar, mesmo quando ninguém ensinou como. O que James Clear chama de compromisso com o futuro, a periferia entende como fé. Não é otimismo. É ancestralidade em movimento. É saber que mesmo sem espelho nós nos enxergamos. Mesmo sem mapa nós chegamos. Mesmo sem permissão nós ocupamos.
Nos ensinam que hábito é comportamento individual. Mas e se hábito também for herança coletiva. E se o hábito de sonhar for uma forma de hackear o algoritmo da miséria. E se o hábito de resistir, amar, criar, rir alto, bater tambor, cultivar o cabelo crespo, chamar a vizinha de tia e defender um corpo negro com orgulho for o verdadeiro milagre. Todo hábito é linguagem. E nosso corpo escreve diariamente uma gramática de insubmissão. A cada passo que damos fora da margem, reescrevemos o roteiro da vida que nos foi negada.
Não buscamos o hábito da perfeição branca. O que nos interessa é o hábito da persistência preta. Cultivar a leitura como quem planta comida. Escrever como quem ergue um quilombo. Dormir sem culpa. Viver com prazer. Dizer não como quem já apanhou, mas ainda assim revida. Amar quem nos ama de volta sem pedir licença ao racismo. Se a repetição cria identidade, queremos nos repetir até virar revolução. O hábito não é apenas disciplina. O hábito é território simbólico. E nós, negros e periféricos, temos o direito de reescrever nossos próprios hábitos, longe das gaiolas da produtividade capitalista.