Cercado de Idiotas – Thomas Erikson

Reduzir é excluir

Uma leitura sociológica e racial de “Cercado de Idiotas”, de Thomas Erikson

Thomas Erikson parte de uma premissa instigante. Estamos cercados por pessoas que pensam e se comunicam de formas diferentes, e grande parte dos conflitos cotidianos nasce da nossa incapacidade de reconhecer e lidar com essas diferenças. Com base no modelo DISC, ele divide os perfis humanos em quatro cores — vermelho, amarelo, verde e azul — cada uma representando um conjunto de comportamentos, reações emocionais e padrões de comunicação. O objetivo declarado é melhorar o convívio e os resultados nas relações de trabalho, familiares e sociais.

Mas e se o problema não estiver nas pessoas, e sim no manual?

Como sociólogo negro e periférico, leio esse tipo de obra com cautela dobrada. Não por rejeitar o conhecimento, mas por saber o estrago que certos modelos universais podem causar quando aplicados em contextos que não têm o privilégio de ser neutros.

O discurso de Erikson é sedutor porque promete clareza num mundo caótico. Ele oferece rótulos simples e categorias previsíveis, convenientes para o mundo corporativo. Mas o que se esconde por trás dessa tentativa de traduzir a complexidade humana em quatro cores é o mesmo impulso que guiou os antigos manuais coloniais: o desejo de controle.

Reduzir as relações humanas a uma paleta comportamental não é apenas ineficaz, é perigoso.
Esse tipo de pensamento ignora o peso da história, da cultura, da exclusão social e, sobretudo, do racismo estrutural.

Quando aplicamos esse modelo em ambientes racializados — empresas brasileiras, escolas públicas, processos seletivos — o que deveria ser ferramenta de compreensão se torna instrumento de reprodução das desigualdades.

O sujeito considerado vermelho, assertivo e direto, pode ser valorizado se for branco, mas será lido como agressivo se for preto.
O sujeito verde, calmo e conciliador, pode ser visto como confiável se tiver sobrenome europeu, mas como apático se vier da periferia.

Essas interpretações não são neutras. Elas são atravessadas por séculos de estigmatização dos nossos corpos e da nossa linguagem.

Cercado de Idiotas faz sucesso porque simplifica o mundo. Mas quem vive na borda sabe que simplificação é apenas o nome elegante da exclusão.

Quando o comportamento humano é reduzido a perfis e cores, sem considerar território, raça, classe, gênero e vivência, o resultado é um modelo branco — não pela cor da pele, mas pela lógica que o sustenta. É a lógica da padronização, da normalidade, da adequação.

Erikson oferece conselhos úteis, sem dúvida, para contextos específicos. Mas há perguntas que o livro não faz. Quem tem o privilégio de ser apenas um perfil comportamental? Quem pode entrar numa sala e ser lido apenas como introvertido, e não como perigoso? Quem pode errar a comunicação e ainda ser tratado com empatia, e não como ameaça?

No Brasil, e em tantos outros lugares, essa paleta não pinta todos com o mesmo pincel.
Ela reforça estereótipos sutis, reembala preconceitos antigos em linguagem de autoajuda empresarial e entrega à elite gerencial mais uma ferramenta de controle disfarçada de empatia.

Se o livro tem valor, ele está no exercício da crítica, da leitura consciente, do olhar histórico.
Mas aplicado sem contexto, ele se torna perigoso, porque do nosso lado da cidade não estamos cercados de idiotas.
Estamos cercados de feridas, de silenciamentos, de estratégias de sobrevivência que não cabem em nenhum gráfico circular.

Thomas Erikson não escreveu um livro perigoso.
O perigo está em como ele é consumido — sem crítica, sem contexto, sem compromisso ético com os que nunca foram padrão.

Ler esse livro com a lente de um sociólogo negro é lembrar que, num país onde ser lido errado pode custar a vida, ninguém deveria ser reduzido a uma cor.
Especialmente nós, que há séculos lutamos para que nossa existência fosse reconhecida como humana.

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